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21/08/2008 14:20

O PAI MAIS FESTEJADO DO MUNDO!

Atendendo a pedidos, estou postando a cronica que escrevi em homenagem ao dia dos pais.
Ela foi publicada originalmente na Revista O Globo no dia 10/08/2008.

O Pai Eterno
LUCIO MAURO FILHO

Durante mais de 30 anos acreditei que meu pai era eterno. Isso, baseado em fatos concretos. Não me lembro dele indo a qualquer tipo de médico ou fazendo check-up. Sempre comeu pouco, mantendo-se incrivelmente saudável à base de dez doses de uísques e dois maços de cigarro. E assim, contrariando todas as probabilidades, ele foi enterrando colegas mais jovens e seguindo em frente, curtindo a terceira idade com a disposição de quem tem 20. Nunca parou de trabalhar e, principalmente, de badalar. Um atleta da boemia. Uma boemia que está entrando em extinção.

Na véspera de completar 80 anos, uma indisposição fez com que ele tivesse que dar um pulo no hospital. É claro que ele não gostou. E foi então que recebi um telefonema, sendo convocado para ir acalmar o velho, pois os exames revelaram uma bolha de ar no seu coração. O jeito era mantê-lo monitorado por pelo menos 24 horas para que se pudesse medir a gravidade do fato.

Quando cheguei ao hospital, papai estava enfurecido por ter que ficar internado, soltando frases como “Com 80 anos, se ficarem procurando coisas em mim, é claro que vão encontrar!”, ou, então, “Se eu quiser morrer agora eu morro. Já fiz tudo o que tinha que fazer na vida!”. E de repente eu me deparei com uma reflexão que eu já deveria estar fazendo há muito tempo. A de que meu pai não era imortal, e o pior, aos 80, ele estava se aproximando cada vez mais rápido do final da caminhada.

Foi um susto tão grande que eu resolvi dormir com ele no hospital. Queria fazê-lo acreditar que tudo não passava de um exame de rotina. Só que o que era pra ser resolvido em um dia demorou dez, e durante esse tempo todo fiquei com ele, dormindo todos os dias ao seu lado, conversando amenidades e tentando convencer os doutores a liberá-lo o quanto antes. Durante o tempo em que passamos juntos, pude constatar o imenso amor e admiração que tenho por ele. E que talvez não tivesse externado esses sentimentos como eu gostaria, afinal de contas, nós, os meninos, não somos educados para isso.

Mesmo tendo uma relação de carinho e de abertura com ele, nossas conversas no quarto eram sempre meio truncadas, e eu sem saber se pulava em cima dele pedindo para que ficasse mais um pouco aqui neste mundo. Fui então pedir pro Pai Eterno e nessas conversas que tive com Ele, cheguei à conclusão de que existia um motivo muito forte para que meu pai não fosse embora. Nós ainda não havíamos nos encontrado no palco. Pai e filho, dois comediantes populares, que carregam o mesmo nome. Eu jamais me perdoaria se o papai partisse antes de realizarmos esse encontro.

Então, quando finalmente veio a alta, fui correndo pra casa escrever uma peça pra gente. Uma peça na qual eu pudesse dizer “Eu te amo” todos os dias pra ele. E com direito a platéia! Foram nove meses escrevendo. Um espetáculo com tintas autobiográficas, onde representaríamos nós mesmos, usando como mote a iminência da morte, para que pudéssemos lembrar às platéias a importância de dizer “Eu te amo”. No meio do caminho convoquei meus irmãos para participarem da jornada, e o velho adorando tudo. No dia 13 de março, último dia dos 80 anos do papai, começamos a realizar o sonho.

Foi uma estréia muito louca. Os convidados riam antes das piadas e se emocionavam até com troca de cenário, afinal, a maioria já conhecia aquela história. Quando terminou, tínhamos um teatro em prantos, uma família em êxtase e o papai feliz como eu nunca tinha visto. Fomos cumprimentar os nossos amigos e, quando deu meia-noite, papai completou 81 anos de vida. Parecia um garoto aditivado pela vitamina mais importante que um artista pode ter. O trabalho.

Depois de quatro meses no Rio, vamos rodar o Brasil. Pra mostrar como esse homem está inteiro, fazendo as platéias rirem, se emocionarem e aplaudirem de pé. Hoje, Dia dos Pais, estaremos em Curitiba, comemorando no palco, ele rodeado pelos filhos. E eu continuo aprendendo com ele, todos os dias, a ser com meus filhos, Bento e Luiza, pelo menos um pouco desse pai maravilhoso. Neste domingo, ninguém vai esquecer de dizer “Eu te amo”. Sugiro que esse gesto seja repetido o ano todo. Com nossos pais, mães, filhos, netos e amigos. A vida fica bem melhor. E já que o espaço me permite, aproveito pra repetir mais uma vez: pai, eu te amo!





enviada por Lucinho






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